quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A profecia do cruzado

Os primeiros raios tímidos de sol surgia no horizonte quando avistaram uma vila, Amora consultou o mapa e constatou que estava bem próximo de Amboise. Olhou para os companheiros de viajem e estes seguiam olhando para estrada quando um deles exclamou: “- Olhem! Uma vila!”. Sem dar muita atenção ela virou-se para seu “irmão” e enfim perguntou sobre o que havia acontecido.

- Ela suicidou após o nascimento do bebê...
- E a criança?
- Nasceu morto.

Sentiu um nó na garganta ao ouvir aquilo, sinceramente não podia imaginar tal tragédia. Respirou fundo e comentou.

- Então a profecia se cumpriu...
- Isso foi uma fatalidade e não profecia, isso é mito, lenda, qualquer coisa inventada por aquela cambada.
- Mas tem que concordar que no mínimo é coincidência.
- Isso é ridículo, Amora. Eu ser a reencarnação de um cruzado só porque tenho o mesmo nome.
- E agora a mesma história de vida. – ele nada falou. – Sabe isso... é... nem sei o que dizer.
- Então não diga. – finalizou Balian irritado.

Como foi sugerido, calou-se e seguiu os poucos metros que faltavam até a vila. Lá despediu-se do velho amigo com um abraço e desejou-lhe sorte em sua jornada. Quanto aos condenados, digamos que nas circunstâncias em que estavam acharam mais conveniente jurar lealdade a sua libertadora que ficar “ao Deus dará”. Eles realmente acabaram criando admiração por ela, por sua coragem e determinação, e mais ainda por que com ela estariam livres e protegidos.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Tal pai, tal filha... ambos "criminosos"

A cadeia seguia seu caminho quando neste apareceu um obstáculo: um tronco caído no meio da estrada. O senhor que conduzia o veículo revirou os olhos, desceu da carroça e foi retirá-lo do caminho, o bastante para que conseguisse passar. Foi quando nossa fugitiva sai rapidamente de uma moita com um grande pedaço de madeira e acertou em cheio na cabeça do senhor, e embora não o matasse foi o suficiente para que este ficasse desacordado. Ela então procurou as chaves em seus bolsos, achando-a seguiu rapidamente para carroça para libertar os presos.

- Eles também? – argumentou Balian.
- Sim, me servirão.
- Mas são criminosos. – respondeu o amigo espantado.
- E até onde me disseram, também és um. – olhou-o séria enquanto amarrava as mãos dos criminosos.
- Disse que acreditava na minha inocência. – falou o homem mais espantado ainda.
- E acredito.

E como se fosse algo completamente entendível ela montou em seu cavalo e ajudou um dos criminosos a subir em sua garupa. Balian ficou olhando-a sem ação e ela exclamou para o mesmo:

- Vai ficar aí parado? Se acomode no cavalo do guarda e ajude o outro homem a subir em sua garupa. O sujeito alto e forte não será a bela adormecida por muito tempo.

Ele então fez sua expressão comunal de quando fingia que entendia as ações e explicações descabidas de sua “Mana”. Por falar nisso, acho que devo-lhe uma explicação quanto ao novo personagem caro leitor. Pois que seja dada. Balian e Amora conheceram-se quando crianças quando esta passava temporadas na casa de uma suposta tia, e por serem filhos únicos (ou pelo menos ela assim achava) acabaram adotando-se como irmãos. Ela não mais o chamava de “Mano”, como pudemos ver, mas ele ainda mantinha o antigo hábito. Algo que agora passava na cabeça dela, por mais infantil e supérfluo que fosse, era um pacto que ambos fizeram certa vez: juraram que eles escolheriam seus respectivos conjugues um do outro quando chegasse o dia, que por sinal nunca chegou já que ela fora mandada as pressas para o colégio interno. Após várias horas cavalgando em silêncio ele perguntou-lhe:

- Não vai querer saber o que houve?
- Não, sei que é inocente.
- Não pareceu tão certa disto mais cedo.
- Por que casou? – perguntou finalmente virando-se para o mesmo. Este riu.
- Sou acusado de assassinato e é isto que mais te aguça a curiosidade? – permanecendo o silencio, Balian prosseguiu – Bom... conheci uma moça, me apaixonei e nos casamos. E se está me acusando de ter quebrado nosso pacto, acho que não é a pessoa mais indicada a isso. Ouvi que vai encontrar seu marido na próxima vila.
-Ahhh... Isso foi uma desculpa. Acho que sou a única que cumpriu o trato, ham? – sorriu divertida.
- Desculpa? Mas por que? – olhava-a confuso.
- Acha que ficaria bem uma dama cavalgando por aí só? Claro que não, ele constataria rapidamente que sou tão criminosa quanto vocês. – sorriu sinicamente.
- O QUE? – no susto parou seu cavalo – Como assim criminosa?
- Ahhh Balian, não seja tolo. – revirou os olhos enquanto falava – Isso seria o que ele pensaria, não estou afirmando que sou. Vamos, temos muito caminho pela frente. Vai ter que mudar de nome se quiser ser inocente.
- Mas eu sou inocente e vou provar! – pôs seu cavalo a andar novamente.
- Sério? E como pretende fazer isso? – interrogou-o fazendo o mesmo.
- Tenho provas , Amora. Eu não estava em casa no momento em que... – e calou-se.
- Ohhh, isso é bom. Onde precisa ir para consegui-las?
- Só me deixe na próxima vila, me viro depois.
- Como quiser, monsier. – respondeu brincalhona.

Seguiram cavalgando por horas a fio, montaram acampamento e logo pegavam a estrada novamente. O reencontro com seu amigo de infância fez-lhe recordar dos tempos passados quando vivia com seu pai e seus respectivos marujos. Ela amava o mar bem como o pai, e este a ensinava tudo o que sabia, ou quase tudo. Divertiam-se aplicando pequenos golpes, fugindo deles ou contando-os ao pé da fogueira, aquilo sim era vida e não a que ela tinha em Paris. O barulho das ondas no casco do navio, o movimento da tripulação com seus afazeres diários, as ordens do pai e o sorriso do mesmo, era o que mais ela sentia falta. Nada a fazia sentir mais viva que o cheiro da maresia que vinha com aquela brisa energizante. Aquilo sim era viver...

"- Está encrencado seu porco imundo! Renda-se ou arrancarei suas entranhas com minha espada!
Capitain Chevalle virou-se ao sentir algo em suas costas e ouvir as palavras fortes que vinham de um pequeno ser intruso, riu e zoou da filha.
- É mesmo? E como pretende fazer tal coisa com uma espada de madeira, petite? Veja só como minha herdeira cresceu, senhor Sparrow . – o homem que estava a conversar com o capitão logo olhou para pequena e abriu um sorriso estendendo a mão.
- Prazer, mademoiselle. Vejo que logo se tornará uma bela e perigosa... donzela.
- O prazer é todo seu, pirata. – respondeu a pequena já com ares de “gente grande” pousando sua mão sobre a de Sparrow, este a beijou.
- Pelo visto herdou muito do pai. – comentou fazendo uma careta. Logo Chevalle interropeu.
- Bom, agora vá para a cozinha papai tem negócios a tratar com o senhor Sparrow.
Obedecendo as ordens de seu pai, Amora seguiu para cozinha após os homens se retirarem para cabine do navio."

terça-feira, 1 de maio de 2012

A cadeia e o condenado

Orléans era uma cidade que começava a voltar-se para o comércio portuário, muitos navios aportavam com mercadorias das Índias Orientais, Singapura, Norte da África, da península Arábica, China... Não seria difícil trocar os bens roubados por outros ou por moeda de ouro. Lá também fez muitos contatos que lhe deram informações muito valiosas sobre seus próximos destinos, e foi lá também que descobriu uma nova paixão...


- Rum? – disse Amora.
- Oui, madamme. Rum! – respondeu um provável comerciante entregando-lhe uma das garrafas. Tome prove e veja se vale a pena trocar por esta prataria, são os melhores, vieram do Caribe!
- Caribe? Hum...  – levou a garrafa até a boca e logo engasgou com o ardor. Cof... cof... cof... Non pagarrei por isso!


O comerciante riu da moça e deixou-lhe ficar com a garrafa, disse-lhe que com certeza voltaria. Ela não acreditou, claro. Porém alguns dias depois estava mesmo de volta, comprou algumas garrafas, o quanto podia carregar em sua bagagem. Dentro de poucos dias já estava na estrada novamente.


- Blois? – perguntou um viajante.
- Oui, Blois. – respondeu nossa fugitiva.


E então o viajante apontou a direção, estranhou alguém querer ir a tal local, há muito Blois perdera seu status e sua importância comercial. Ela agradeceu-o e seguiu a cavalo pela estrada indicada, chegou ao final da tarde. Deu uma volta pela cidade, realmente não havia muito movimento como haviam dito os marujos em Orléans. Há quase um século a corte havia sido transferida para Paris e, com ela foram a prosperidade e atividade econômica que lá existia. Encontrou uma humilde barraca com uma senhora e perguntou-lhe sobre estalagens, assim que obteve a informação seguiu para a mais próxima.
Em seu quarto analisava o mapa que roubara da biblioteca do internato, passou a noite planejando seu próximo passo. Ao amanhecer seguiu a procura de informações com os feirantes, um deles indicou-lhe um senhor.


- Amboise – respondeu o homem – Soube que eles possuem uma bela biblioteca em seu castelo.
- Hum... fica próximo do rio Loire... – comentou Amora olhando para o mapa.
- O castelo fica às margens dele senhora.


Já a caminho do condado Indre-et-Loire milhões de idéias vinham-lhe à mente, enquanto esta tentava organizá-las servida de rum, a noite caía e o frio aumentava, o rum a aquecia. Foi então que avistou à sua frente na estrada uma charrete iluminada, embora gostasse de charretes não foi boa a sensação que lhe veio com a lembrança que a mesma despertara...

"Fazia frio naquela noite e a charrete disparava em direção a Paris. Dentro dela haviam duas figuras: pai e filha. A pequena garota não entendia o porquê de tanta pressa e o homem transparecia calma, no entanto por dentro estava angustiado com a idéia da Companhia das Índias Orientais o pegassem antes que este chegasse ao Caribe. Não saía da sua cabeça que se estivesse sozinho seria mais fácil, porém aquela “encomenda” que chegara à porta de sua cabine há alguns anos atrás não lhe deixava outra alternativa senão arranjar para esta também um local seguro.


- Para onde estamos indo, papai?
- Lembra daquela sua tia, a Natalie?
- Não. – respondeu olhando-o.
- Então...  É pra lá que vamos. – e sorriu-lhe voltando-se para frente."

Acordou assustada com o trincar de ferragens, estava deitada sobre o pescoço do seu cavalo que andava vagaroso. Com os olhos semicerrados olhou para sua montaria e arqueou uma das sobrancelhas. Ouviu novamente o trincar de ferragens. Olhou para trás e com os olhos espremidos tentou enxergar o que vinha pela estrada, tratava-se de uma cadeia¹. Dentro da jaula estavam três homens, dois deles apoiados de pé nas grades olhando para estrada, o terceiro, moribundo, estava sentado num canto de cabeça baixa. O condutor a cumprimentou.


- Bonjour, mademoiselle. Sozinha na estrada assim tão cedo? – e deu um sorriso desdentado.
- Não, não. Encontrar-me-ei com meu marido logo à frente, na próxima vila. Chega hoje de longa viajem, sabe? Não pude agüentar-me de tanta ansieda...
- Mana? – exclamou o moribundo já de pé.
- Mas o que... O que ele faz aí?? – gritou Amora para o condutor ao reconhecer o amigo.
- Um criminoso, minha senhora. Matou a mulher e o filho...
- Não matei!
- Ora, mas...! Ele nunca faria tal atrocidade! Tire-o daí!
- Conhece-o madamme? Não grite. Não posso tirá-lo sem uma ordem oficial.


Ela pensou em proferir mais alguns insultos, mas conteve-se. Foi até o moribundo para conferir seu estado e perguntou:


- Como isso foi acontecer? Estás bem?
- Uma tragédia, mana... – falou o homem com grande pesar.
- Não importa o que houve, sei que és inocente. – olhou de canto para o condutor e falou em tom baixo – Irei tirar-te daí, Balian.


Saiu em disparada com sua montaria, já tinha tudo em mente, tudo.

__________________________________________________
Notas
¹ Movimento popular de transferência de condenados até a prisão.

sábado, 9 de julho de 2011

O sangue fala mais alto

Acordou ainda abraçada com John, sorriu e logo desmanchou o sorriso, sabia que logo teria de partir e deixá-lo, seus objetivos eram mais importantes. Levantou-se e vestiu-se, lavava o rosto pensativa quando ele a abraçou por trás beijando em seu pescoço.

- Bonjour, madamme.
- Bonjour. – respondeu-lhe sorrindo.


Assim, John seguiu sua rotina diária e ela ficou na pequena casa para bolar um plano de roubo e fuga. Os dias se passaram e tudo corria bem, já conhecia os cômodos dos patrões de seu parceiro e onde estariam os objetos de valor. É chegado o dia, tudo estava pronto. Haviam ensaiado cada passo.


- Estás pronto? – ela perguntou.
- Estou.


Esperaram até as “luzes” se apagarem e entraram na casa. O plano se fazia da seguinte forma: um ficaria na vigília enquanto o outro saqueava, por assim dizer, os bens da família e logo depois fugiriam a cavalo, cada um no seu para despistarem. Claro, ela havia bolado o plano e sua intenção não era continuar o caminho com ele. Tudo deu certo, já estavam na estrada e num certo ponto separam-se marcando um ponto de reencontro numa cidade próxima. Ela não apareceu. Seguiu para o sul, chegando a Orléans quase um dia após sua partida.

domingo, 11 de outubro de 2009

A verdadeira face

O dia amanheceu e com a claridade do sol ela acordou, olhou para o lado e não viu mais ninguém. Levantou-se e foi lavar seu rosto numa bacia que estava sobre uma mesinha, sobre outra mesa havia um pequeno café da manhã. Sorriu e foi esfomeada até ela, falou sozinha.

- Bela delicadeza, Mr. John.


Após alimentar-se saiu pela fazenda com um dos cavalos que acho no estábulo. Ao final do dia estava de volta, levou o cavalo de volta sem que ninguém percebesse, na verdade quase ninguém.


- Voltou? - ela assustou-se e virou-se para seu espião.
- Non me assuste assim, posso non me responsabilizar pela reação.


Enquanto ela prendia o arreio do cavalo ele se aproximava, segurou em seu braço com força virando-a de frente e falou bem próximo a ela.


- Falei pra ficar longe de confusão!


A mesma sensação voltava-lhe e misturava-se com o medo. Tentou controlar-se para não deixar transparecer e olhou com vigor.


- Alguém me viu pegar o cavalo, monsier? Non roubei, peguei emprestado. – puxou seu braço fazendo com que ele o soltasse, olhou-o irritada. Non precisas te preocupar, logo estarrei longe daqui.


Retirou-se dali, ele, certamente com a mesma sensação que ela, ficou a observá-la saindo do estábulo, e irritado consigo mesmo, esmurrou uma das pilastras.
Ela entrou na casinha e, ao fechar a porta, recostou-se nela fechando os olhos. Tentava enganar a si mesma, concordando que tudo que sentia era raiva, excessiva por quase nada, mas era raiva. Ele foi banhar-se em outro lugar, num “chuveiro” próximo às casinhas talvez. Na casinha, Amora se preparava para o seu banho, sempre com a adaga por perto e atenta caso John aparecesse, este só apareceu quando ela já havia deitado para dormir. Olhou-a e pensou que a mesma já tivesse adormecido, foi até seu guarda roupa e de lá tirou uma caixa, logo em seguida guardou-a, deitou-se dormindo rapidamente. Enquanto isso ela observava-o de longe, aproveitou que ele dormia para averiguar a tal caixa.


- Non acre... - foi interrompida pela voz de John reprimindo-a.
- O que faz aí??? – ele levantou ao perceber sua caixa nas mãos de Amora, esta escondeu a mesma nas costas se afastando para trás.
- Já sei do seu segredo. – falou sorrindo ameaçadoramente.
- Não há segredo algum, me devolva!
- Devolver?? Non mesmo. – correu para perto da cama onde estava sua arma.
- Não pode fazer isso comigo! Eu lhe ajudei! Devolva-me agora. – apenas olhava-a.
- Pardon monsier, é mais forte que moi. – piscou.


Ele irritado voltou-se para ela, esta pegou sua adaga, mas ele não recuou e a empurrou contra parede mesmo assim. Encurralada, ameaçou-o com a adaga encostando-a em seu pescoço.


- Já disse é mais forte que moi. Tente pegá-la e morrerrá tentando. – falou serrando os dentes e logo depois sorriu.


Mesmo ameaçado ele não a soltou, mas também não tentou pegar a caixa de volta, não sabia o que fazer, mesmo irritado aquela mulher o atraía e com a respiração ofegante continuou a encará-la. Ela estava mais preocupada com o que poderia ganhar com aquele segredo e então continuou.


- Melhor assim... – continuou sorrindo. Façamos o seguinte... proponho um acordo, toi aceita e estamos quites. O que me diz?
- Que acordo? – por um instante parou de olhar para os lábios daquela linda morena.
- Toi me mostra a casa por dentro, roubamos algumas jóias, prataria, e non o denuncio. Que tal?
- Roubar os Fontaine’s?
- Oui.
- Eles vão me acusar, na certa. Sou novo aqui! Sem acordo.
- Arrr... – ela resmunga revirando os olhos. Pegue algo e fuja também, orras.
- Não vai desisti não é? – por um momento parecia confuso, mas agora a idéia lhe agradava um pouco.
- Non.
- Proponho então que... – apertou-a contra a parede com seu corpo. Fujamos juntos.


A sensação, a atração que sentia pelo rapaz estava adormecida até este momento. Ela pressionou a faca contra o pescoço dele, porém não tão forte. Ele conseguiu então afastar o braço dela junto á adaga e sem nenhuma reação da mesma a beijou, esta deixando a caixa cair junto com a adaga se deixou levar.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O esconderijo e o inglês

Distraída em seu banho, não percebera que alguém da janela entreaberta a observava. Tratava-se de um dos empregados e, para sorte dela, ainda não pensava em denunciá-la. O rapaz adentrou no cômodo e seguiu até a cortina, abrindo-a falou. - Bonsoir, mademoiselle. No susto, ela escondeu-se na beira da tina deixando apena o rosto de fora. Olhou para o chão e viu sua velha adaga sobre suas vestes. Percebendo o pensamento da moça ele tratou de explicar-se. 

- Calma... Não irei machucar-lhe. – seu sotaque chamou a atenção.
 - Enton o que querres? – indagou. 
- Apenas curiosidade. O que faz uma moça tão “belle” escondida na casa de um humilde empregado como moi? Hum? 
- Non sabia que estava ocupada, monsier. Sou a nova empregada da casa, encontrei esse cômodo vazio e me apossei.... digo, me acomodei. 
- Nova empregada? Sérrio? – imitou o sotaque da moça debochando da mesma. Engraçado, também sou novo por aqui e não lembro-me dos Fontaine terem empregado nenhuma “mademoiselle” por estes dias. 
- Orras, acabei de chegar e... Ao perceber que sua desculpa não mais surtiria efeito, num rápido movimento pegou sua adaga e apontou-a para o rapaz, ameaçando-o. Este afastou-se para trás e com receio tentou acalmá-la. 
- Hey... não precisa me ameaçar, não contarei a ninguém que estás acomodada em meus aposentos. 
- Sei que non. Gostarria apenas que saia desta ala parra que moi possa me vestir. Ele riu. 
- Como irá me atacar se não queres que te veja... desnuda? 
- Uma adaga non se utiliza só de perto, monsier. – sorriu arqueando a sobrancelha e preparou a adaga para atirá-la. 
- Ok, ok... Tudo bem. Esperarei lá fora. – receoso retirou-se imediatamente. 
Vendo que estava novamente sozinha, ela levantou vestindo-se rapidamente. Ia fugir pela janela, mas assim não teria onde dormir e comer. Revirou os olhos e suspirou. Foi para perto da porta e avisou ao seu anfitrião de que já havia se vestido. Este entrou novamente. 
- Achei que fosse fugir pela janela. 
- Tenho outros planos... Vais me denunciar? Monsier... – sorriu de canto. 
- Não mesmo, mademoiselle... – olhou-a cima a baixo. Qual é o seu nome? 
- Amora... – engoliu seco após perceber a intenção do olhar do rapaz. Amora Chevalle. 
- Oui, senhorita Chevalle. Podes ficar por aqui, mas não por muito tempo e nada de me arrumar confusão. 
- Sou totalmente imune a confusões. – respondeu ela. 
- Melhor assim. Se me permite, irei banhar-me. 

Após acenar para ela com um inclinar de rosto e esta dar-lhe passagem, ele seguiu para a ala de banho despindo-se pelo meio do caminho sem preocupar-se com a moçoila presente. Esta por sua vez, sentiu-se embaraçada por não ser costumeira tal atitude, não para ela. Porém não foi somente embaraço que sentira, havia outra sensação a qual nunca havia sentido antes. Ele seguiu seu caminho para o banho e ela foi até sua bagagem retirar o que não lhe serviria mais. Sentou-se na varanda da pequena casinha, que na verdade não passava de um cômodo e ficou a observar a casa grande. O rapaz saiu da pequena casa e sentou ao seu lado. 

- Linda casa, não? 
- Oui... – olhou para ele. Non me disse seu nome. 
- Ah claro. Chamo-me John L. Fante. Prazer! – estendeu-lhe a mão. 
- Exanté, monsier Fante. – falou enquanto pousava sua mão a dele, este a apertou. Amora estranhou tal cumprimento, geralmente os homens beijavam-lhe as costas da mão, mas sorriu. 
- Non és daqui, és? – perguntou. 
- Não milady. Sou inglês. – respondeu ele olhando para casa grande, ela fez o mesmo. 
- Diga-me John, conhece bem a casa? Ela é bonita por dentro também? 
- Sim, sim... 

E ali ficaram a conversar até as luzes da casa se apagarem. Os dois entraram, John arrumou um lugar para dormir e cedeu a Amora sua cama. Enfim dormiram.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A fuga

Na primeira oportunidade escondeu-se entre as bagagens de alguma charrete, que partiu em alguns minutos. Em sua bagagem levava apena um mapa extraído de um livro, uma muda de roupa e um pouco de alimento. Com a charrete conseguiu chegar até Orléans, chegou à noite do mesmo dia. E antes que seu transporte à porta da residência desejada, a pequena fugitiva em um pulo saiu desta. Em meio ao jardim da casa, ela olhava-a de longe observando a movimentação na varanda. De dentro da casa saiu um casal e da charrete uma garota, já quase mulher, ambos abraçaram-se. Olhando aquele momento família ela, a fugitiva, fez uma careta de deboche e seguiu para os fundos da casa. Lá descobriu alguns quartos que serviam de abrigo para os empregados da família, esgueirando-se foi a procura de algum cômodo vazio até que encontrou um mais afastado. Ali se banharia e esperaria todos dormirem, para por a segunda parte do seu plano em prática. Após averiguar se realmente estava sozinha, despiu-se para o banho e, embora fosse de estatura pequena, seu corpo mostrava a mulher que seu rosto quase infantil escondia. É a pequena fugitiva, já não era tão pequena assim. Completavam-se dois anos que se despedira de seu pai à porta do Collége de Notre Dame de Sion... 

"- Mas pére... 
- É prreciso ma fille, tenho negócios a tratar nas Américas. Non poderrei levá-la. 

E ele partiu. Seus olhos acompanharam seu pai até onde não mais alcançava, embora estivesse acostumada com as partidas e sumiços de seu pai, aquela despedida parecia-lhe especialmente diferente. Virou-se então para o prédio e suspirou, uma freira a esperava à porta sorrindo. Seguiu para a porta e cumprimentou-a. 

- Bonjour, madamme. 
- Bonjour, petite. – as duas entraram."